quinta-feira, 9 de julho de 2009

A cena paulistana, por Bruno Morais


A nova música brasileira está acontecendo em São Paulo. Ponto.

Mas tudo isso está acontecnedo de uma maneira muito particular, por meio da colaboração entre vários artistas. Mais uma "sintonia" do que um "movimento", os Novos Paulistas estão fazendo música juntos, mas conceitualmente separada uns dos outros.

Um desses novos nomes é Bruno Morais, um paranaense de Londrina radicado em São Paulo já há algum tempo. Bruno acaba de lançar pela YB o belíssimo álbum "A Vontade Superstar", um trabalho marcado pela voz sutil e pelo clima cinemático das canções do artista, mas que foi feito a base de muita colaboração, como conta a longa ficha técnica que acompanha o encarte do álbum. Quase um "quem-é-quem" dessa cena.

Recentemente tive a oportunidade de entrevistar Bruno para meu outro blog e um dos pontos que conversamos bastante foi esse aspecto colaborativo do disco e dessa nova galera de Sção Paulo. Veja o que ele disse, com excluvidade:

A colaboração acontece muito num nível bem profissional, mas não num sentido chato da coisa, e sim no sentido de termos que marcar um horário num estúdio e falar “vamos fazer um negócio?”. Tem aqui um hábito de mandar por e-mail, não é um negócio de encontrar na balada. Eu não encontro com o Maurício Fleury num bar e começo a escrever um arranjo em cima da mesa, não é isso. E mesmo durante o dia, não tem um estúdio em que as pessoas ficam passando por ali e gravando coisa, se visitando. Tem que ter muita vontade para fazer a coisa acontecer. E acho que isso faz os trabalhos sejam muito coletivos, eles conversem entre si, mas são muito diferentes um do outro.

Cada trabalho tem essa atmosfera, essa coisa das pessoas assinarem o trabalho. A música do Thiago Pethit é do Thiago.

Nós até fizemos coisas como o Ensaio Aberto, que era, eu, o Léo Cavalcanti, Tatá Aeroplano [Cérebro Eletrônico/Jumbo Elektro] e o Maurício Fleury no Studio SP, que era uma ideia de fazer uma coisa coletiva ali, sempre tinha um convidado. Mas era só isso, a gente ia lá, ensaiava duas músicas com o convidado, ensaiava as outras e tal. Os arranjos ficaram incríveis e até quando eu for gravar essa canções, que são inéditas, eu vou chamar os caras. Mas é sempre o meu trabalho dentro daquilo, sabe? Esses dias eu fui gravar com o Kiko Dinucci, mas é muito o trabalho do Kiko, ele me dirigindo e eu fazendo o que ele mandava.

É todo mundo tocando com todo mundo, mas ao mesmo tempo aquela trabalho tem a assinatura daquela pessoa. Eu me vejo com um trabalho que teve a participação de um monte de gente, mas que é meio único, íntimo até. Fica sempre tudo diferente do outro.

Por exemplo, os trabalhos solo da Andreia Dias, da Iara Rennó, da Anelis Assunção são totalmente diferentes, mas elas tocam na mesma banda [DonaZica], que tem um som diferente do delas. Mas todos eles conversam entre si.

A gente fez um show chamado “Tudo De Novo” ano passado no Auditório do Ibirapuera, que tinha essa idéia. Até foi uma maluquice da nossa cabeça, que acabou deixando algumas bandas meio putas, porque o jornal queria falar que tinha uma coletividade, e o assunto era justamente esse: a falta de uma coletividade, de uma coisa homogênea. Não é nada homogênea. Ninguém se encontrou durante o show, não teve todo mundo tocando de mãos dadas no final. Era mesmo para falar disso, era quase uma experiência estética. Para as pessoas perceberem mesmo que tinha um movimento interessante acontecendo em São Paulo, que é justamente essa coisa de não ser um movimento, de não ser “todo mundo junto”, mas sim de haver uma sintonia. E isso é o que faz essa geração ser ainda mais rica.

Se você ouvir todos os discos dos anos 70, mesmo sendo diferentes, eles tem muita coisa em comum. A sonoridade, os timbres, o lugar para onde vai a melodia, o jeito que a banda toca, é tudo bem parecido. No nosso caso não é assim. O jeito como o Guizado toca na minha banda não é o jeito como ele vai tocar no trabalho dele, ou com o Lúcio Maia. O [Guilherme] Kastrupp é diferente fazendo o show da Adriana Partimpim, da Andréia Dias, ou o meu.

Apanhador Só e Heitor & Banda Gentileza no estúdio

apanhadorgentileza

Com uma banda do seu cast e uma banda-amiga preparando seus primeiros álbuns, a Agência Alavanca teve uma idéia bem simples e que devia virar moda entre os artistas brasileiros: convidou as duas para fazerem um diário online das gravações dos seus discos.

Dá para ler relatos saborosos de como andam as sessões em estúdio dos gaúchos do Apanhador Só e dos curitibanos do Heitor & Banda Gentileza. Os primeiros já estão na segunda etapa da gravação do debut, divida em duas por sugestão do produtor Marcelo Fruet, cujo ótimo trabalho pode ser ouvido no último disco do Pública. Já a Banda Gentileza fez a pré-produção do álbum (previsto para outubro) com Plínio Profeta no começo do mês e se prepara para gravar todas as faixas em 10 dias no estúdio Nico's, a partir desse fim de semana. Coisa boa vem aí. Acompanhe lá.

Hotel Avenida e o novo rock de curitiba

Fora do "mapa musical" do Brasil por muito tempo, Curitiba tem sido um dos pólos dos bons sons do país nessa década. Pense no Bonde do Rolê, que bombou lá fora e a cena que eles acabaram criando, que engloba os novíssimos e hypados Boss In Drama, Copacabana Club e a dupla Je Rêve de Toi. E, pense, principalmente na cena roqueira da cidade, que vai da pegada política do Terminal Guadalupe, até os experimentos psicodélicos do Delta Cockers, passando pelo peso instrumental do ruído/mm, o bucolismo urbano (não é um paradoxo, acredite) do Stella-viva, ou ainda indie pop dos Sabonetes. Isso sem falar em bandas como o Nevilton, do interior do Paraná, ou Cassim & Barbária/Bad Folks e Superpose de Florianópolis, para quem a cidade virou um centro de referência. E há também o Hotel Avenida, que está chegando agorinha.

O Hotel Avenida é o projeto de duas figuras – Ivan Santos e Giancarlo Rufatto – bem familiares de quem já está ligado em Curitiba há algum tempo. Ivan é vocalista e principal compositor do OAEOZ, banda que lançou ao menos um must-listen do rock brasileiro nessa década, “Às Vezes Céu” de 2005 (baixe no Trama Virtual). Já Giancarlo toca uma elogiada carreira solo desde 2005, cujo o último lançamento é o EP “Machismo”, lançado mês passado junho.

Depois de lançarem um EP no final de 2008, ainda sobre seus próprios nomes, os dois decidiram mostrar no palco as canções compostas em parceira e foi isso que acabou virando o Hotel Avenida no começo desse ano, com a adição dos músicos Carlão Zubek, Rubens K e Eduardo Patrício.

A banda lançou em junho o primeiro single virtual, a ótima “Eu Não Sou Um Bom Lugar”, um folk-rock que remete ao melhores momentos de bandas americanas como Okkervil River e Blitzen Trapper.

[MP3] Hotel Avenida – Eu Não Sou Bom Lugar

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Justin Timberlake elogia novos nomes da eletrônica brasileira

Mesmo não sendo tão recente quanto essa nova MPB, a cena brasileira de música eletrônica (e afins) fica cada dia maior, mais forte e internacional. Esse movimento de expansão vem desde o começo dessa década, impulsionado por uma certa "globalização" do funk carioca ("baile funk" para os gringos) que liga Rio-SP-POA-Curitiba à Londres-Berlin-Paris-Melbourne-NY-LA-Miami sem escalas e faz nomes como Edu K e Diplo duas faces de uma mesma moeda.

Não preciso aqui explicar em detalhes a ascenção internacional do CSS (antes , Cansei de Ser Sexy) ou do Bonde do Rolê, mas é certo que se há um estilo de música brasileira que tem feito a cabeça dos gringos, esse é a música eletrônica.


E não sou eu que digo isso. Quem diz é "só" o novo príncipe do pop mundial (REI só você Michael!), Justin Timberlake. Num post em seu blog intitulado "Taste Of Brazil: Electronic Baile Funk And More", Justin teceu vários elogios aos novos artistas brasileiros, citando, além de CSS e Bonde do Rolê, o duo cearense de eletro-clash Montage e o produtor curitibano de synth-pop Péricles Martinsa, o Boss In Drama. Vai lá e confira as dicas do acertada do cara.



Outro astro pop que anda de olho nessa cena é o rapper Kanye West, que postou há alguns meses o vídeo de "Just Do It", semi-hit da banda curitibana Copacabana Club, um nome em franca ascensão na música brasileira.

A nova música brasileira - outras opiniões

No post inicial desse blog, fiz um breve, mal escrito e entusiasmado texto sobre o, uhm, state of art da música brasileira nessa década, cuja a idéia geral era basicamente que em nenhum momento da história dos últimos 20 o Brasil esteve tão bem representado musicalmente. Estamos falando de uma nova "geração de ouro", como foi àquela que começou na bossa nova, brincou na jovem guarda, desbundou na tropicália e amadureceu nos anos 70. Ou então, mais breve e um pouco menos genial, àquela que fez o país do samba virar uma nação roqueira nos anos 80, para então mesclar suas raízes com os novos som, como fizeram os novetistas.

Por mais que as afirmações do último parágrafo soem prepotentes, elas não são feitas só por esse blog. Tem mais gente pensando assim e não é coisa pequena.

Na sua edição de junho, a TRIP, uma das maiores revistas de cultura e comportamento do país, trouxe uma matéria especial chamada "Os Nove Novos", que traz o perfil de nove personagens-chave para música brasileira hoje e amanhã. Fernando Catatau, Céu, Daniel Ganjaman, Hélio Flanders, Júnio Barreto, Kassin, Romulo Fróes, Tatá Aeroplano e Thalma de Freitas são para essa publicação hoje o que Chico Buarque, Caetano, Gil, Paulinho da Viola, Nara Leão, Toquinho, Jair Rodrigues, Milton Banana e Magro do MPB4 eram para clássica revista Realidade em 66, quando esta fez a capa abaixo, que inspirou a matéria da TRIP (e a primeira foto do post). A reportagem, completíssima e esclarecedora, pode ser lida na íntegra no site da revista e é um bom guia para quem quiser se iniciar nesses artistas e seus outros projeto (todas as ligações com outros artistas estão lá), já que uma caracterísitca básica dessa geração é o fato de colaborem muito uns com os outros.


Alguns desses "nove novos" da TRIP também estão no novo programa do Canal Brasil (canal 66 da NET/Sky, "Pelas Tabelas", que do começo de junho até agosto está mapeando os novos compositores do Brasil. Toda sexta às 22h (reprises aos domingos, meio-dia) o programa mostra o trabalho de dois compositores. Quem ainda não viu está perdendo, mas dá para sentir o gostinho no vídeo-release abaixo, que compila alguns dos melhores momentos do programa.



Presente nas duas listas (a da TRIP e a do Canal Brasil), o paulistano Romulo Fróes lançou esse ano o disco duplo, "No Chão Sem O Chão" (baixe no Um que Tenha), uma espécie de manifesto particular sobre tudo isso que estamos conversando. Como visto, Romulo é uma das figuras-chave dessa nova geração e certamente é o mais articulado deles. Recentemente ele publicou um texto no blog da revista gaúcha O Dilúvio, em que fala da nova música brasileira e as características em comum dos artistas inseridos nela. Leia tudo aqui, mas preste atenção a esse parágrafo que sintetiza bem o que está sendo discutido aqui:

"Há muito tempo não se via tantos artistas com trabalhos tão diversos e com tamanha qualidade, quanto agora. Talvez a palavra novo, tão desgastada por seu uso, não seja aplicável ao que vêm fazendo, mas sim ao modo “como” vêm fazendo. Já não é mais possível abarcar o Brasil, como fizeram por exemplo os Tropicalistas. Não só todo o vocabulário incluído por estes em sua música como a baixa e a alta cultura, a guitarra elétrica, o regionalismo, a mídia, a publicidade, a sexualidade, a tecnologia e tudo o mais ainda está em voga, como ainda outros tantos verbetes surgiram e continuam a surgir todos os dias. Daí o conceito de novidade já nascer datado. É com a Internet, esta ferramenta que mudou nossa percepção de mundo, onde se deparam a toda hora com tudo, quero dizer “tudo”, que já foi dito, pensado e vivido por todos, no passado, no presente e às vezes parece que até no futuro, que os artistas de hoje produzem. E se eles se fartam dessa nova ordem, a carga de influência que sofrem é tamanha e tão diversa, que talvez seja impossível a formação de um “novo” pensamento sobre música popular brasileira hoje e talvez não seja mesmo mais tão necessário. O que é necessário ainda e sempre, é que se produza arte boa, mesmo que esta tão somente revele as influências de quem a criou."

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Móveis Colonias de Acaju, a banda C_MPL_TA


Você pode até tentar agumentar contra, mas é fato que o Móveis Coloniais de Acaju é a banda brasileira do ano. Os brasilienses, que também completam 10 anos de estrada em 2009, estão com tudo: o novo álbum, "C_MPL_TE", vem sendo considerado um dos melhores laçamentos do ano pela crítica e já soma mais de 220 downloads gratuitos segundo a Trama, enquanto a banda leva seus shows catárticos por todo Brasil.

No entanto, mais interessante que isso, é perceber como o grupo chegou até aqui. Com 9 integrantes, o Móveis é uma espécie de anti-banda para os padrões do mercado da música nos anos 2009. Numa indústria que hoje é movida mais por apresentações ao vivo, do que pela venda de CDs ou música digital, uma banda com tantos membros poderia ser cara demais para excursionar, afinal num mercado em que sempre se miniza gastos qual seria o booker que iria preferir pagar 9 passagens ao invés de três para um power trio qualquer? Mas o Móveis, talvez pelo tour de force que apresentam no palco, são uma das bandas independetes que mais fazem show, pode olhar na agenda dos caras.

O segredo disso também está muito na maneira como eles se orginizaram para sobreviver. Divindo as tarefas do dia-a-dia de uma banda - marcar shows, produzir os próprios eventos, lidar com a imprensa, alimentar o site, fazer contato direto com os fãs, produzir e vender merchadising - entre os vários membros, os brasilienses conseguiram crescer e desenvolver uma sólida base de fãs (que lotam os shows de SP ao norte do país), sem terem o aporte financeiro e o investimento em marketing proporcionado por uma grande gravadora. Um exemplo de auto-gerência, de fato.

Outro ponto decisivo foi o uso massivo da internet, principalmente no lançamento do seu último disco, "C_MPL_TE", que chegou de graça antes na rede através do Álbum Virtual da Trama para depois ir parar na prateleiras das lojas. Tão fácil de baixar que você pode fazê-lo até nessas mal traçadas linhas:









Bem antes do lançamento, a banda já utilizava a internet para "lançar" o álbum. Explico: enquanto gravava, o grupo soltava periodicamente updates do estúdio, em texto e em vídeo no site, aguçando a curiosidade dos fãs e criando um burburinho crescente na web. Depois estrearam um hotsite dedicado ao disco, onde durante um período foram apresentando vídeos das novas músicas gravados ao vivo, criando assim uma espécie de "show de lançamento online", que você abaixo:



Produzido pelo mítico Carlos Eduardo Miranda - descobridor de Raimundos, Skank e outros ícones dos anos 90 e jurado do programa "Ídolos" do SBT/Record - "C_MPL_TE" traz no nome a necessidade das bandas de hoje de se comunicarem diretamente com o seu público para sobrevirem e na sonoridade um grupo maduro, melodicamente impecável e pronto para, me perdoem o trocadilho óbvio, completar uma longa história de sucesso. Que venha!

sábado, 20 de junho de 2009

A Música Brasileira em 2009

Bem vindos ao Nem Todo Carnaval Tem Seu Fim, um espaço criado para divulgar e refletir sobre a Nova Música Brasileira. O título, como muitos devem ter percebido, é feito em referência a primeira faixa do disco nacional mais icônico dos anos 2000, "Bloco Do Eu Sozinho" dos Los Hermanos.

Não é tão fácil explicar o porquê, mas 2009 se encaminha para ser um ano-chave para música brasileira. Em nenhum outro momento nos últimos 10 ou 15 pode-se ver uma safra de artistas e lançamentos tão grande, tão boa e tão diversa, e, mesmo que estes não ocupem (ainda) um lugar nos ouvidos da massa, eles estão a ocupar outros espaços, menores, mas seletos, característica essa que é ditada pelo tempo em que vivemos.

Muita coisa mudou de 1999 de para cá. Aquele foi um ano bastante interessante, se formos analisar. No Brasil, a geração de artistas surgidos no começo dos anos 90 (Marisa Monte, Lenine, Pato Fu, Zeca Baleiro, Mundo Livre s/a, Cássia Eller etc) atingia a maturidade artística, enquanto velhos conhecidos como Caetano Veloso, Titãs e Capital Inicial experimentavam o doce sabor das altas vendagens. Ao mesmo tempo, chegava às prateleiras "Los Hermanos", o primeiro e homônimo álbum da banda que melhor simbolizou o que viria a seguir na música brasileira.

Daí tudo começou a ruir. Há os mesmos 10 anos surgia o Napster, que descortinou um mundo possibilidades e problemas ao permitir o compartilhamento música de graça com facilidade através da rede, dando início a ainda presente crise da indústria fonográfica. Em terra brasilis, a novidade demorou alguns (poucos) anos a chegar, devido às precárias condições da internet do país naquela época, mas quando chegou fez um grande estrago. Isso se deu principalmente por que a popularização troca de arquivos online aconteceu ao mesmo em que a pirataria física de CDs (e posteriormente, DVDs) tomava as ruas e as casas num vulto que impressiona até hoje.

O resultado disso foi o atual caos da mercado de música no Brasil, a fissura entre o que era mainstream e o que era independente, e algo como uma "crise estética" na música. Não foi fácil. Diversos artistas foram cortados dos casts, gravadoras de porte como a Abril Music e outros selos fecharam, as majors passaram a investir muito menos e com muito mais cuidado em novos, o mesmo tempo em os preços por CD ultrapassavam os 40 reais.

A tal fissura do mercado já era uma realidade nos anos 90, mas ficou mais séria no começo dessa década, quando o mainstream encolheu e o mercado independente começou a crescer, mas não necessariamente em direção ao consumo de massa. No meio disso, uma banda marcada pelo maior sucesso da virada da década, "Ana Júlia", lançava à duras penas um disco incômodo, difícil e, acima de tudo, genial. É inegável hoje a importância de "Bloco Do Eu Sozinho", dos Los Hermanos, para os dois lados da indústria fonográfica. Lançado por uma majors, o álbum representou uma outra possibilidade de mercado no momento em que o quarteto carioca escolheu caminhos bem mais difíceis que o do sucesso fácil, que provavelmente viria se eles tentassem repetir "Ana Júlia". Responderam a pergunta que ninguém quis responder: em tempos de crise, é melhor queimar todo cartucho de uma vez ou bater o pé, perder no primeiro momento, para então voltar sólidos no momento seguinte? O sucesso de "O Vencedor", música do terceiro disco da banda, dois anos depois só deixa mais clara a acertada decisão que o "Bloco" representa.

Para os independentes, a atitude dos Los Hermanos serviu como um norte, quase uma garantia que ainda era possível sim fazer e viver de música estéticamente estimulante no deus-dará que se transformou o mercado fonográfico pós-MP3. Pensando assim, as cenas, principalmente as mais distantes do eixo, começaram a se organizar de forma mais racional e com isso conseguiram sobreviver e, na medida do possível, prosperar. O cenário da música independente ganhou espaço a mídia, uma ainda pequeno, mas fiel público, associação (ABRAFIN) e até edital de empresa pública. Mesmo que ainda esteja bem longe da estrutura existente em países como Estados Unidos e Inglaterra, as movimentações indies no Brasil hoje representa uma peça que não pode ser mais ignorada pelo mercado, e 2009 está aí para provar.

Não é necessário relembrar cada capítulo dessa história para chegar a conclusão que em 2009 estamos começando um novo momento na música brasileira. À medida que o modelo de negócio da música inicia um processo (doloroso e que ainda leva tempo) de reestruturação, é hora de se pensar um caminho uno para música brasileira, hora em que não importa mais em que "lado" você está, mais sim se você está produzindo boa música e que esta esteja chegando nos ouvidos de quem precisa dela.

É com essa idéia que começa o Nem Todo Carnaval Tem Seu Fim. Nesse primeiro post colocamos os pontos para reflexão, que iremos detalhar à medida que forem surgindo novidades e necessidades. Por enquanto, deixo você leitor com uma lista de quase cem títulos de tudo que já foi lançado em 2009 na música brasileira (a maioria, grandes obras) e de alguns que temos muita confiança. É um mapa para nos guiar. Partimos daqui.

Lançados

- AMP
"Pharmako Dinamica" [Compre]


- Babe, Terror
"Weekend" [MP3]

- Bang Bang Babies
"Love And Bullets" [Compre]

- Black Drawing Chalks
"Life Is A Big Holiday For Us" [Compre]

- Bruno Morais
"A Vontade Superstar" [Compre]

- Cachorro Grande
"Cinema" [Streaming]

- Caetano Veloso
"Zii e Zie" [Compre]

- Caio Bosco
"Diamante EP" [MP3]

- Caio Marques
"Cidade Vazia EP" [MP3]

- Céu
"Cangote EP" [MP3]

- De Leve
"De Love" [Compre]

- Disco Alto
"Sierra Nevada" [MP3]

- Dois Em Um
"Dois Em Um" [Compre]

- Eddie
"Carnaval No Inferno" [MP3]

- Felipe Schuery
"Data Crônica" [MP3]

- Giancarlo Rufatto
"Machismo EP" [MP3]

- Gui Boratto
"Take My Breath Away" [Compre]

- Inverness
"Forest Fortress" [MP3]

- Júlia Says
"Menos É Mais EP" [MP3]

- L.A.B.
"Less A Bullshit EP" [MP3]

- Lab
"Mmm..." [MP3]

- Luisa Mandou Um Beijo
"Luisa Mandou Um Beijo" [MP3]

- Lula Queiroga
"Tem Juízo Mas Não Usa" [Compre]

- Mariana Aydar
"Peixes Pássaros Pessoas" [Compre]

- Max Sette
"O Que Se Passou" [MP3]

- Móveis Coloniais de Acaju
"C_MPL_TE" [MP3]

- Nancy
"Chora, Matisse"
[MP3]

- Nando Reis
"Drês" [Compre]

- Nervoso & Os Calmantes
"Nervoso & Os Calmantes" [Compre]

- Paralamas Do Sucesso
"Brasil A Fora" [Compre]

- Perito Moreno
"Made To Escape" e "Save The Elephants EP" [MP3]

- Poléxia
"A Força do Hábito" [MP3]

- Profiterolis
"Pare e Siga" [MP3]

- Pública
"Como Num Filme Sem Um Fim" [MP3]

- Pullovers
"Tudo Que Eu Sempre Sonhei" [MP3]

- Rafael Castro
"O Estatuto do Tabagista EP" [MP3] e "Raiz EP" [MP3]

- Romulo Fróes
"No Chão Sem O Chão" [Compre]

- Siba e Roberto Corrêa
"Violas de Bronze" [Compre]

- Stela Campos
"Mustang Bar" [Compre]

- Titãs
"Sacos Plásticos" [Compre]

- The Name
"Assonance EP" [MP3]

- Terminal Guadalupe
"O Tempo Vai Me Perdoar EP" [MP3]

- Tiê
"Sweet Jardim" [Compre]

- Vanguart
"Multishow Registro" [Compre]

- Victor Toscano
"Sentido Cidade" [MP3]

- Zeca Vianna
"Seres Invisíveis" [MP3]

- Zélia Duncan
"Pelo Sabor do Gesto" [Compre]

- Wry

"She Science" [Compre]

Previstos para 2009
Cidadão Instigado (julho)
Fagner - "Uma Canção No Rádio" (julho)
Holger (novembro)
Maria Gadú - "Maria Gadú" (julho)
Mombojó - "Amigo do Tempo" (julho/agosto)
Os Mutantes - "Haih" (setembro)
Nevilton (julho)
Superguidis - "Tolos Mudam" (julho/agosto)
Vulgue Tostoi (julho)
Wado - "Atlântico Negro" (julho)
Jumbo Elektro - "Terrorist!?" (???)
Lucas Santtana - "Sem Nostalgia" (???)
Numismata - "Chorume" (???)
Supercordas - "A Mágica Deriva dos Elefantes" (???)
Ana Canãs (???)
Apanhador Só (???)
Burro Morto (???)
Céu (???)
Chico Buarque (???)
Copacabana Club (???)
Do Amor (???)
Garotas Suecas (???)
Guizado (???)
Heitor & Banda Gentileza (???)
Ludov (???)
Mallu Magalhães (???)
Nina Becker (???)
Nuda (???)
Sabonetes (???)
Stella-viva (???)
Terminal Guadalupe (???)
Vanguart (???)
Violins (???)