
No post inicial desse blog, fiz um breve, mal escrito e entusiasmado texto sobre o, uhm, state of art da música brasileira nessa década, cuja a idéia geral era basicamente que em nenhum momento da história dos últimos 20 o Brasil esteve tão bem representado musicalmente. Estamos falando de uma nova "geração de ouro", como foi àquela que começou na bossa nova, brincou na jovem guarda, desbundou na tropicália e amadureceu nos anos 70. Ou então, mais breve e um pouco menos genial, àquela que fez o país do samba virar uma nação roqueira nos anos 80, para então mesclar suas raízes com os novos som, como fizeram os novetistas.
Por mais que as afirmações do último parágrafo soem prepotentes, elas não são feitas só por esse blog. Tem mais gente pensando assim e não é coisa pequena.
Na sua edição de junho, a TRIP, uma das maiores revistas de cultura e comportamento do país, trouxe uma matéria especial chamada "Os Nove Novos", que traz o perfil de nove personagens-chave para música brasileira hoje e amanhã. Fernando Catatau, Céu, Daniel Ganjaman, Hélio Flanders, Júnio Barreto, Kassin, Romulo Fróes, Tatá Aeroplano e Thalma de Freitas são para essa publicação hoje o que Chico Buarque, Caetano, Gil, Paulinho da Viola, Nara Leão, Toquinho, Jair Rodrigues, Milton Banana e Magro do MPB4 eram para clássica revista Realidade em 66, quando esta fez a capa abaixo, que inspirou a matéria da TRIP (e a primeira foto do post). A reportagem, completíssima e esclarecedora, pode ser lida na íntegra no site da revista e é um bom guia para quem quiser se iniciar nesses artistas e seus outros projeto (todas as ligações com outros artistas estão lá), já que uma caracterísitca básica dessa geração é o fato de colaborem muito uns com os outros.

Alguns desses "nove novos" da TRIP também estão no novo programa do Canal Brasil (canal 66 da NET/Sky, "Pelas Tabelas", que do começo de junho até agosto está mapeando os novos compositores do Brasil. Toda sexta às 22h (reprises aos domingos, meio-dia) o programa mostra o trabalho de dois compositores. Quem ainda não viu está perdendo, mas dá para sentir o gostinho no vídeo-release abaixo, que compila alguns dos melhores momentos do programa.
Presente nas duas listas (a da TRIP e a do Canal Brasil), o paulistano Romulo Fróes lançou esse ano o disco duplo, "No Chão Sem O Chão" (baixe no Um que Tenha), uma espécie de manifesto particular sobre tudo isso que estamos conversando. Como visto, Romulo é uma das figuras-chave dessa nova geração e certamente é o mais articulado deles. Recentemente ele publicou um texto no blog da revista gaúcha O Dilúvio, em que fala da nova música brasileira e as características em comum dos artistas inseridos nela. Leia tudo aqui, mas preste atenção a esse parágrafo que sintetiza bem o que está sendo discutido aqui:
"Há muito tempo não se via tantos artistas com trabalhos tão diversos e com tamanha qualidade, quanto agora. Talvez a palavra novo, tão desgastada por seu uso, não seja aplicável ao que vêm fazendo, mas sim ao modo “como” vêm fazendo. Já não é mais possível abarcar o Brasil, como fizeram por exemplo os Tropicalistas. Não só todo o vocabulário incluído por estes em sua música como a baixa e a alta cultura, a guitarra elétrica, o regionalismo, a mídia, a publicidade, a sexualidade, a tecnologia e tudo o mais ainda está em voga, como ainda outros tantos verbetes surgiram e continuam a surgir todos os dias. Daí o conceito de novidade já nascer datado. É com a Internet, esta ferramenta que mudou nossa percepção de mundo, onde se deparam a toda hora com tudo, quero dizer “tudo”, que já foi dito, pensado e vivido por todos, no passado, no presente e às vezes parece que até no futuro, que os artistas de hoje produzem. E se eles se fartam dessa nova ordem, a carga de influência que sofrem é tamanha e tão diversa, que talvez seja impossível a formação de um “novo” pensamento sobre música popular brasileira hoje e talvez não seja mesmo mais tão necessário. O que é necessário ainda e sempre, é que se produza arte boa, mesmo que esta tão somente revele as influências de quem a criou."
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